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Pessoas que queremos que você conheça...


Pertencimento perene


Como podemos melhorar as condições do local em que vivemos? Daiane Almeida, assistente da Communitaria nas atividades de Itapoá (SC), traz suas reflexões sobre participação e planejamento social.


Você participou, recentemente, do programa Líderes do Futuro. Como foi? Quais os aprendizados que tirou de lá?

O programa é muito legal! Trata-se de uma iniciativa realizada pelo Porto Itapoá, que convidou os jovens da comunidade. Houve muitos participantes. Foi um trabalho de aprendizado de planejamento e execução, basicamente.


Aprendemos a montar um projeto do começo, a estruturar suas etapas. Foi uma ótima lição. Uma das partes de que mais gostei foi a dinâmica de perfil; nela, fizemos o Teste de Dominância Cerebral, de Ned Herrmann, cujo resultado nos mostrou nossas características de trabalho. Foi um momento interessantíssimo, porque todos os participantes se identificaram com o resultado, e a sensação geral foi de confirmação do que já acreditávamos. O meu, inclusive, é mais voltado para a organização, para a parte administrativa. Sou, de fato, uma pessoa que gosta desse aspecto do trabalho.


Em todos os momentos fomos orientados pela Communitaria, que lecionou sobre todas as partes de um projeto, tudo que precisávamos para conseguir elaborar os nossos próprios. E, de fato, meu grupo elaborou uma proposta. Em quatro pessoas, criamos as bases para a criação de uma biblioteca comunitária. Seu andamento está todo estruturado, pronto para a implementação.


Crescemos muito em termos de técnica. O programa me animou bastante. Aprendemos a trabalhar e a trocar vivências com pessoas que não conhecíamos. Pessoalmente, por gostar muito de trabalhar com crianças, fiquei muito feliz ao contemplar a existência de uma futura biblioteca comunitária, visto que, entre as atividades oferecidas, estão rodas de leitura infantis. O projeto corrobora meus objetivos acadêmicos e profissionais: estudo Educação Física com esse propósito. No futuro, quero trabalhar com as crianças aqui da região.


Qual a importância do empreendedorismo social em locais como Itapoá? Quais mudanças ele traz?

Itapoá é bem pequena; era, primordialmente, uma vila de pescadores. Após a construção do porto, a vida da comunidade mudou bastante. De repente, a pesca não era mais a única atividade fundamental. O empreendedorismo local é uma forma de ajudar e de resolver alguns problemas que ficaram desde sua instalação.


Com o passar do tempo, nosso objetivo é que os próprios moradores resolvam seus problemas: aqui é uma comunidade em pleno desenvolvimento de seu coletivismo. Ainda falta um pouco de união. Há grupos distintos, cuja abertura estamos trabalhando. Aos poucos, percebem que as melhorias individuais devem dar espaço às coletivas, justamente pelo benefício generalizado criado.


É um trabalho de longo prazo. A ideia é não ficar para sempre nos locais atendidos. Portanto, as pessoas têm que estar empoderadas para levar as melhorias da sociedade nas próprias mãos. Isso está caminhando aos poucos. Há algumas pessoas que são líderes comunitários, que têm essa vontade do bem comum. Trabalhamos muito essas questões com eles.


Os jovens da cidade estão bastante inseridos nos ideais de comunidade e coletivismo; o Líderes do Futuro, inclusive ajudou muito a despertar esse potencial. Alguns estão buscando melhorias. Acredito que, futuramente, algumas estruturas vão mudar bastante.


Entre os aprendizados na área social, qual imagina ser o mais importante? O que o motivou a escolher essa área de atuação?

Todos são importantes, mas gosto especialmente da parte de trabalhar com pessoas. Mais especificamente, de fazê-las enxergar que podem fazer algo a mais, e que podem fazer coisas boas. Conscientizá-las.


O que me motivou, certamente, foram as oportunidades dadas. Sempre gostei de assuntos relacionados à vida comunitária. Como venho de uma família agricultora, trabalhávamos com plantações, afastados da parte urbana da cidade. Por sermos uma parcela muito pequena, desde criança já éramos estimulados a participar, a ajudar os próximos. Com isso, sempre gostei de fazer as coisas coletivamente. Éramos poucas pessoas, mas nos ajudávamos muito.


Esse histórico de vida voltada para a coletividade certamente me moldou. Assim, batalhar por melhorias semelhantes em Itapoá tornou-se algo natural para mim.


Você se mudou, há alguns anos, de Laranjeiras do Sul (PR) para Itapoá. Percebe diferenças no âmbito social das duas cidades? O que mudou de uma para outra?

Estou em Itapoá há quase cinco anos. Para mim, algumas coisas são bem diferentes. Para começar, saí de um contexto de agricultura para uma cidade praiana. Na parte social, o senso comunitário que sinto também é outro. Antes morava em um contexto participativo; trabalhávamos juntos, tínhamos essa vontade de ajudar o outro. Aqui é um pouco diferente: esse senso de coletividade ainda está um passo atrás. Trabalhamos para alcançar esse novo patamar com a população.


A comunidade unida faz a luta por direitos fluir melhor. Em Laranjeiras as pessoas eram unidas para buscar direitos e benefícios. Sabíamos de todas melhorias feitas pela Prefeitura. As pessoas tinham mais consciência do que estava sendo feito, lutavam mais pelo progresso de todos. Quando a Prefeitura doava algo, por exemplo, não era apenas para uma família, mas para a comunidade inteira. Então havia um rodízio. Uma máquina de colheita, por exemplo, era adquirida para que toda a população usasse.

Queremos Itapoá em um caminho parecido, dentro de seu próprio histórico e particularidades. Queremos uma população que compreenda o valor do bem comum. Que saibam que, ao se conquistar coletivamente, o bem vem para todos.


Sabemos que você é capitã do time de futebol de seu bairro. Quais aspectos dessa liderança podem ser transferidos para a atuação social?

Sou capitã, mas compartilhamos as tarefas do time. Resolvemos nossos problemas conversando.


Acredito que algumas características pessoais se refletem em outras áreas, mesmo que não percebamos. Tenho que correr atrás de soluções, ser o melhor possível para o bem do time. Luto, por exemplo, para que nossos treinos ocorram também fora da proximidade dos campeonatos. Que tenhamos um calendário de treinos para o ano inteiro. Mudar a situação atual é difícil: as meninas do time possuem filhos e família para cuidar, então o tempo que têm para jogar é curto. Por isso, sinto-me responsável por correr atrás do que for melhor a todas. Doar um pouco de mim a elas sem benefício pessoal nenhum em troca, exceto pelo prazer de vê-las bem.


Temos um respeito mútuo muito grande. Elas sabem que, quando precisam de algo, podem vir conversar. Decidimos nossas questões juntas. Apesar da resolução coletiva, os caminhos têm de ser orientados. É nesse ponto que ajo.


Como a contribuição pessoal pode ajudar a melhorar uma comunidade? Qual o nível de comprometimento necessário?

Acredito que é necessário correr atrás das soluções! Disponibilidade é certamente algo difícil de se conseguir; no entanto, é preciso reservar esses horários preciosos. Para mim, por exemplo, é bem difícil, porque estudo, cuido da casa, trabalho... às vezes não encontro todo o tempo que queria. Mas temos sempre que tentar. Como se fosse outra obrigação qualquer, mesmo. Não ter tempo é uma oportunidade de conseguir uma brecha na agenda para trabalhar essas questões.


A vontade de fazer as melhorias acontecerem tem que existir em todos. É preciso se importar, ter um amor pelo tipo de atividade que você deseja desempenhar pelos outros. Isso pode ser despertado nas pessoas. Acredito que, para isso, é necessário encontrar um assunto, um tema de trabalho do qual a pessoa goste. É como encontrar uma atividade física ideal: não adianta se forçar fazendo algo de que não gosta. É preciso descobrir o que te faz bem nesse processo.


Claro, não é necessário ser um especialista logo de início. Apenas ter o interesse. Desse ponto em diante é muito prazeroso procurar saber mais, buscar informações, projetos parecidos, aprendizados com o que já foi feito. Aprender com experiências prévias.


Como vê o futuro das comunidades em que vive?

O que eu espero para a cidade é que aos poucos as coisas mudem no campo da coletividade. Que tenhamos mais lideranças comunitárias, pessoas que venham para unir as comunidades e tragam benefícios. Isso pode ser despertado tanto nos jovens quanto nos mais velhos; é só fazer com que contemplem o bem de todos a seu alcance. Podem ser despertados com os argumentos certos.


É necessário mostrar às pessoas que os projetos, os ideais e objetivos, não têm “donos”. Que todos são protagonistas nessas histórias, que aquilo também é deles. A vida que queremos não vai cair do céu, e adoraria ver as pessoas se conscientizando disso e agindo de acordo com o que desejam para todos.

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