Buscar
  • renatomobaid

Pessoas que queremos que você conheça...

Atualizado: Mar 2

Aprendizado e ensino simultâneos


Após um longo período de aprendizados, Fernanda Tadei agrega experiência e força de vontade no trabalho com projetos na Communitaria. Aqui, ela responde algumas questões sobre sua trajetória e opiniões.

Quando você percebeu a vocação para projetos sociais? Como foi seu caminho até esse momento?

Quando eu entrei na faculdade, minha primeira ideia era trabalhar na gestão pública de alguma forma. À época eu nem sabia que a área de Projetos existia. Trata-se de um campo que conhecemos melhor quando já estamos envolvidos, com um pé para dentro.


Após um tempo, descobri que quem estudava Gestão Pública poderia, sim, trabalhar no Terceiro Setor. Há uma espécie de mito, no entanto, de que todos que trabalham nele são voluntários. Apenas quando entramos na área entendemos seu real funcionamento.

Meu primeiro emprego durante a faculdade foi em uma ONG de habitação popular; um projeto do Minha Casa, Minha Vida. Lá, entrei em contato com coisas diferentes, tarefas que até então eu não percebia que também poderiam ser trabalho. Havia uma relação com Setor Público e, ao mesmo tempo, funções com pessoas da comunidade. Foi então que percebi que esse escopo profissional era possível.


Conforme fui mudando de emprego (trabalhei em 3 ONGs durante a faculdade) percebia cada vez mais que me sentia confortável naquele ambiente, e que o trabalho, quando faz sentido, torna-se melhor. Todas as organizações em que trabalhei tinham algo em comum: atuavam na área de projetos com escopo social, cada uma em seu tema específico. Minha trajetória profissional sempre esteve ligada a essa área de alguma forma, trabalhando na intermediação entre governo e empresas ou governo e Sociedade Civil.


Sua formação tem relação com seu trabalho na Communitaria?

Certamente. Em tudo o que realizo profissionalmente uso conceitos de Gestão Pública para fazer a conexão entre Poder Público e sociedade. Na Communitaria faço uma interação bem completa: vou às Secretarias, falo com figuras públicas. Há um trabalho de relação, de interação direta entre agentes públicos e comunidade. Gosto de ligar os pontos; gosto de intermediar a interação entre a secretaria de Educação de um município, por exemplo, e seus habitantes.


Há, muitas vezes, um ligeiro despreparo do Poder Público para lidar diretamente com a comunidade. Muitos são ótimos gestores administrativos, porém, distantes do público. Outros fazem muito bem essa interação, mas não conseguem lidar com a burocracia diária. No entanto, o que vejo é que é cada vez mais necessário que as pessoas que ocupam esses cargos saibam balancear essas duas atividades para uma gestão mais completa e eficiente.


Quais os projetos mais relevantes em que trabalhou nos últimos anos?

Trabalho, hoje em dia, com o Fórum Comunitário do AMPLIAR, no Sul; também participei do VIM, projeto que continuei acompanhando durante o ano, e do Educação Cidadã, o qual ajudei a desenhar no começo de 2019 e agora está sendo finalizado (ou seja, pude acompanhá-lo por completo).


Entrei no AMPLIAR em uma fase já bastante evoluída, então creio que tudo que vivenciei nele já vem de uma construção prévia, e acredito que o programa acrescentou muito em meu repertório. Nunca havia trabalhado diretamente com comunidades tão distintas: famílias pesqueiras e grupos tradicionais. A interação, principalmente a mediação de conflitos, é um grande aprendizado.


No VIM, o que mais me orgulha é poder ver como os participantes conseguem, agora, agir em conjunto sem apoio externo. Hoje eles conseguem fazer muita coisa sem nenhum ator externo precisando incentivá-los. Fazem isso com uma facilidade que nem sabiam ser possível.


O Educação Cidadã, que acompanho desde o início, foi o que mais me impactou e cuja evolução pude ver melhor. O projeto pretendia trazer um pouco do ambiente legal da área de Educação para professores e gestores educacionais do Vale do Paraíba. Então tratamos de temas pertinentes, como legislações educacionais e planos de carreira, e esse processo me fez perceber como as comunidades-base, que estão na ponta do processo, não possuem esse conhecimento, e o quanto ele é importante.


Como os projetos em que trabalha têm evoluído com o passar do tempo? O que você pôde aprender com eles? Como sua maneira de trabalhar os modificou?

Quando começamos o trabalho do Educação Cidadã, fizemos uma análise inicial, procurando saber os assuntos mais requisitados. Para nossa surpresa o funcionamento da legislação na área educacional foi um dos temas que se destacaram. Havia uma carência nesse sentido. É muito gratificante ver esses professores, hoje, fazendo planos de acordo com seu orçamento previsto em lei. E me sinto muito grata por fazer parte desse processo e aprendizado.


Certamente aprendi muito mais do que levei para todos eles; são eles que têm a vivência, que sabem na pele as dificuldades reais de falta de tempo e recursos para melhorar seu ambiente de trabalho. É uma área em que os profissionais demonstram real paixão, e isso é inspirador. Acredito que em qualquer outro projeto que vá participar serei muito mais acolhedora e empática por causa dos aprendizados que tive com eles.


Não tem a ver apenas comigo. Há mais pessoas por trás desses projetos. Em alguns momentos, tive a oportunidade de ser a representante desse grupo que está realizando todo um esforço de planejamento e investimento. Então levamos, sim, muito conhecimento para os participantes; criamos conforto ao mostrar que existe alguém pensando neles. Que há entidades preocupadas com o conhecimento e a educação desses municípios como um todo. Acredito que deixamos uma marca em todas essas pessoas. Mas reitero que não faço nada sozinha; tudo é criado em conjunto.


Quais contribuições projetos como os em que atua deixam?

A ideia é não sermos uma muleta para as comunidades; queremos ser um trampolim. Estaremos lá pelo período que for necessário, e muitas vezes só conseguimos mensurar isso conforme o andamento do projeto, mas a ideia é ficarmos até elas poderem caminhar sozinhas. Há, de maneira geral, um considerável amadurecimento dos públicos contemplados; eles conseguem entender melhor suas necessidades, realizar seu próprio planejamento. Tornam-se capazes de reflexão e autoavaliação, tanto nos erros como acertos. A principal conquista é quando passam a se enxergar como protagonistas da causa. Entendem que são importantes e passam a cuidar desse empoderamento. Entendem que não é apenas o governador ou o prefeito o agente transformador, mas também cada um que possui interesse na melhoria da comunidade. Que é possível fazer coisas grandes sendo professor, pescador, artesão...


Qual o impacto de suas ações em seus círculos sociais? Percebe as pessoas mudando conceitos e comportamentos com seu exemplo?

Certamente. A convivência é uma grande troca! Sou influenciada por pessoas ao meu redor, e também as influencio.


Há quem esteja mais aberto para a mudança; outros estão menos. Absorvo muito o conhecimento e comportamento de pessoas com as quais convivo com frequência. Acho que todos temos essa capacidade e fazemos isso, mesmo que involuntariamente. Espero que minhas influências sejam positivas.


Em meu círculo de amigos não há ninguém mais que trabalhe nessa área, então a curiosidade sobre o funcionamento do setor acaba gerando bastante diálogo.


Uma coisa que pode acontecer, eventualmente, é a romantização da profissão. Acreditam que é algo muito “do coração” e menos profissional e estruturado do que realmente é. O romântico não funciona 100% do tempo: se não houver técnica, os projetos não apresentam resultados. Às vezes também acontece o oposto, endemonizam o que faço. Acreditam que o trabalho com o Poder Público é inerentemente corrupto ou escuso. Também é preciso deixar claro as estruturas da função para que as pessoas entendam que há seriedade e transparência no que é realizado.


Acredita que mais atuações como a sua são possíveis e necessárias? Como mostrar isso para as pessoas?

Claro que é possível. Acredito que há espaço para mais pessoas nesse campo. Precisamos muito de pessoas que queiram realizar as coisas da maneira certa.


Muitos querem ajudar, na realidade. No entanto, nem todos estão dispostos a seguir os passos necessários para que a melhoria seja perene. É preciso que mais pessoas estejam dispostas a ouvir e construir com a comunidade, no longo prazo, criando soluções conjuntas. Assim conseguiremos ampliar nosso trabalho.


Gostamos de dizer que ajudamos, mas também gostamos, de certa maneira, que existam pessoas que precisem de nossa ajuda. É uma solução paliativa; mais do que apenas doadores, precisamos apoiar a criação de políticas de inclusão concretas. É uma mudança de mentalidade, que não vai acontecer de uma hora para outra.


Quais projeções faz para o futuro do investimento social privado (ISP) no Brasil?

Minha opinião sobre isso não se criou sozinha; ela é fruto de tudo que tenho visto e ouvido nesse campo. Acredito que o futuro do ISP é as empresas, cada vez mais, saírem da zona de conforto e entenderem melhor as comunidades. Ouvir mais, investir mais.


O ISP, se não estruturado adequadamente, vai perdendo seus efeitos com o tempo. Vemos isso nos projetos em que empresas colocam soluções prontas, sem levar em conta as idiossincrasias das comunidades. Elas têm de ir às bases, entender os anseios das pessoas e resolver da maneira mais comprometida possível com a sociedade, não apenas com o setor empresarial. Há muitas companhias percebendo que precisam ser mais responsáveis social e ambientalmente; acredito que isso é uma tendência forte e global. A empresa que não fizer isso, inclusive, estará um passo atrás.


As pessoas estão deixando de consumir produtos de empresas que não apresentam esse tipo de preocupação. A população entende, também, cada vez mais o impacto que as companhias têm em suas comunidades, e exigem cada vez mais que as contrapartidas sejam justas. Agora isso tem que fazer parte dos valores da empresa. Não é mais questão de “parecer boazinha”; exigimos ações sustentáveis, cívicas. Quem não entrar nisso, no longo prazo, vai acabar se perdendo.


ISP não é ser bonzinho. É fazer algo contundente pela comunidade e mostrar que isso faz parte de seus alicerces. É preciso devolver para a comunidade, sempre.


Entrevista realizada por Renato Mobaid.

146 visualizações