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Pessoas que queremos que você conheça...

Atualizado: Jan 21

...porque fazer parte desse mundo é fazer parte também da solução dos seus problemas.




Para um turista desatento, o cuidado com a natureza nas cidades de Carrancas e Tiradentes, em Minas Gerais, pode parecer casual. Poucos sabem, no entanto, que boa parte desse trabalho com sustentabilidade e meio ambiente foi desenvolvida por uma incansável figura. Juliano Batista de Almeida, mais conhecido como Juliano Dosantigo, atua em diversas frentes para concretizar seu objetivo: um progresso urbano que não deixe para trás a preocupação com o planeta.


Quais são suas funções atuais em Tiradentes e Carrancas? Como essas cidades estão ligadas à sua história?

Sou guia turístico nas duas cidades, ao lado de mais pessoas preocupadas com o desenvolvimento não predatório da região. Além desse papel, trabalho à noite como recepcionista em uma pousada em Tiradentes. Também atuo como professor de substituição em uma escola municipal estadual, nas áreas de Matemática, Geografia e Biologia. Por fim, sou presidente do Conselho da Cidade (CONCIDADE) de Carrancas e faço parte do núcleo gestor. Tanto o Conselho quanto o núcleo gestor são representantes da sociedade civil e ajudam na consolidação do Plano Diretor de Carrancas, criando projetos que garantam o crescimento do turismo na cidade sem agressões à natureza.


Quando você era guia mirim de turismo, já demonstrava uma preocupação grande com o meio ambiente. Na época, quais fatores contribuíram para o crescimento desse interesse?

Eu comecei meu trabalho como guia turístico em Carrancas aos 14 anos, em 1991. Éramos um grupo pequeno, e acompanhávamos os turistas da região.


Na prática, comecei a perceber a necessidade de cuidado com o meio ambiente já naquela época. Minha família vivia, majoritariamente, na zona rural, e meu contato com a preservação ambiental começou cedo.


Em Carrancas, quando eu era criança, havia muito caçadores, que alertavam os mais novos sobre a importância da preservação, de só se tirar o necessário do ambiente. Crescemos envolvidos nessa atmosfera de respeito. Mais tarde, com a Guerra do Golfo, vimos imagens que nos marcaram para sempre: pássaros encharcados com petróleo, praias devastadas. Isso deixou ainda mais claro em nossas cabeças a necessidade de um convívio pacífico com a natureza.


Como a população me indicava para ser guia turístico dos visitantes, aos poucos fui contribuindo para o desenvolvimento do turismo na cidade.


Fale um pouco sobre alguns dos projetos ambientais e de educação ambiental já criados por você.

Toda essa ideia de criar projetos veio com a visita de uma profissional do IBAMA, Rose Myrian Ferreira, à nossa cidade. Ela previa que, caso um turismo predatório surgisse, os biomas e a cidade sofreriam modificações irreversíveis e apresentariam um choque de valores, e a preocupação ambiental gerada disso fez com que começássemos as iniciativas.


Essa profissional, amiga minha até hoje, acreditou em nós e fez com que participássemos de diversos cursos na área ambiental, promovendo ainda mais a noção da importância da preservação. De início, contatávamos pessoalmente a população da cidade, procurando instruir os moradores. Quando necessário, apelávamos para a lei para explicar o que deveria ser feito. Arranjamos muita confusão conscientizando as pessoas (risos).


A escola da cidade também colaborou muito com nossos projetos; assim, o cuidado com a natureza aumentou bastante por parte dos moradores e turistas.


Em sua opinião, a atuação como guia ajuda na conscientização da população? O interesse médio da população por biomas, biodiversidade e sustentabilidade aumentou durante os últimos anos?

Ainda há exceções, infelizmente. Mas, no geral, o interesse aumentou muito. Nós conversamos com eles sobre biomas, expansão agrícola. Ensinamos a pessoa a respeitar o cerrado, a entender suas particularidades.


Ainda há muito a ser feito. A especulação imobiliária, o desmatamento e as queimadas fora de época prejudicam muito a conservação da área. Mas seguimos firmes, pois sabemos que tratamos com uma população crescente na consciência do que precisa ser feito.


Hoje alguns efeitos práticos dessa orientação podem ser vistos na cidade: os passarinhos, por exemplo, antigamente eram presos em gaiolas. Hoje, é comum vê-los soltos pelas casas, sendo bem cuidados pelos moradores. A caça predatória, também, desapareceu.


O interesse coletivo é mais aproveitado quando na mão de muitos. Como você faz para incentivar isso na população?

A população pode ser incentivada da mesma maneira que os turistas. Os Conselhos Municipais ajudam os habitantes a pensar diferentemente sua relação com a natureza. Assim como no começo, ainda abordamos muito os moradores de ambas as cidades pessoalmente e procuramos explicar a necessidade de mudanças em seus comportamentos. Educá-los para a sustentabilidade com conversas e projetos é a melhor maneira de fazê-los entender.


A escola é muito importante para isso. Ela ensina as técnicas, explica a importância, abre a cabeça dos alunos. Inclusive, estamos trabalhando atualmente em um projeto que objetiva criar a 1ª Mostra de Educação Ambiental de Carrancas, que vai discutir a responsabilidade dos seres humanos sobre o ambiente em que vivem. Acredito que hoje em dia a educação ambiental deveria ser introduzida como disciplina obrigatória nas escolas.


Como seu esforço o incentiva na hora de correr atrás de seus sonhos? Você acredita que o futuras gerações precisam de mais pessoas que se importem com o bem público como você?

Pessoalmente, sempre fui preocupado com as futuras gerações. Somado a isso, sempre tive a consciência de que se eu ficasse esperando passivamente por melhorias, nada iria mudar.


O esforço que fazemos sempre é válido. Temos muitas dificuldades, muitas coisas dão errado, mas se conseguimos desenvolver essa consciência em pelo menos uma pessoa, já vale muito para todos. E ela, além de tudo, vai se tornar um agente disseminador. Vai “contagiar” outros com seus valores.

É uma bola de neve: começou com uma pessoa acreditando em um grupo de jovens. Desses, dois continuaram engajados e, hoje em dia, são mais de 20 realizando esse trabalho.


Todos os esforços que faço são para mostrar essencialmente isso: que o esforço contínuo por uma causa traz resultados surpreendentes com o devido engajamento.


Entrevista realizada por Renato Mobaid.


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