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Pessoas que queremos que você conheça...



O devido valor


Como trazer dignidade às vidas de um grupo ignorado pela sociedade? As opiniões de Delaine Romano, que há mais de duas décadas realiza formações com catadores de material reciclável em São Paulo, trazem novas perspectivas e reflexões à questão.


Como sua jornada se inicia? O que fez com que sua história cruzasse a dos catadores, mesmo pertencendo a mundos tão diferentes?

Tudo começou quando quis participar de um curso de Reciclagem de Papel no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (LAOSP). Era muito difícil formar turmas completas para ele, visto que na época não havia essa cultura de reaproveitamento que existe hoje. Mas eu me interessava muito pelo assunto e, após quase dois anos esperando, uma turma se formou e eu entrei.


Gostei muito do curso. Me esforcei bastante, e no ano seguinte fui convidada a ser monitora. Com a saída da professora, um tempo depois, comecei a ministrar as aulas. Finalmente, fui promovida a coordenadora dos cursos do LAOSP.


Fui procurada pela Organização de Auxílio Fraterno (OAF), que trabalha com catadores de material reciclável por meio da cooperativa Coopamare. Precisavam de alguém para ministrar o curso a eles, porque nenhum tinha conhecimento de como o processo de reciclagem se dava. Montei um módulo simples, utilizando como base os próprios materiais que coletavam. Apesar de gostarem muito, percebi que não iriam reciclar o papel em si, apenas coletá-lo, visto que era sua atividade. Então, sugeri à cooperativa que montassem o curso de reciclagem de papel não para os catadores, mas para seus filhos.


Foi uma ótima ideia: são crianças e adolescentes que moram na periferia, que não têm atividades extracurriculares ou lazer, e acabam ficando na rua. Com o curso, eles iriam às aulas de manhã e, à tarde, para a cooperativa. Os catadores adoraram essa história; seus filhos estariam sob seus olhares, não mais na rua.


Foi daí que comecei. Montei um programa para os filhos, e comecei a me relacionar muito bem com os catadores, os quais acabaram se tornando meu foco principal.


Quais aspectos você trabalha com esses grupos? Sabemos que é muito preocupada com a autoestima, por exemplo.

Acho muito importante trabalhar a autoestima deles. Quando você trabalha a autoestima, sobe um degrau na vida. É isso o que queremos para os catadores.

Não adianta ministrar apenas formações técnicas; isso eles sabem. O maior problema que enfrentam é o inter-relacionamento. Eles não trabalham juntos, é uma profissão naturalmente solitária. Logo, não têm muita visão do coletivo. Isso sempre me preocupou muito.


Procuramos trabalhar falando sobre o que desejam saber. Aumentando seus conhecimentos em assuntos que os interessam. Eles pedem coisas relacionadas à profissão, mas muitas vezes querem outros temas não-relacionados. É outro mundo, ao qual não tinham acesso, mas pelo qual têm muita curiosidade.


Além das palestras profissionais, temos muitas oficinas com diversos assuntos. Oficinas de fotografia, por exemplo. Eles se interessam muito, porque é outra realidade. Isso vai mudando a forma com que vivem: suas posturas, hábitos em casa, maneira de falar, iniciativas. Sabemos que autoestima é empoderamento.


Nosso trabalho é respeitar e valorizar o trabalho deles. Há um tempo, fizemos uma visita a uma indústria de papéis, porque queríamos que eles entendessem a utilidade de seu trabalho. Quando viram o papelão subindo na máquina e, do outro lado da fábrica, esse material se tornar uma caixa pronta, ficaram encantados. “Olha o que nossa coleta cria!” Isso engrandece muito o trabalho para eles.


Ser catador não é só andar na rua, no sol. Aquilo que fazem se transforma em algo bacana. Isso enobrece muito. Veem que o que fazem não é marginal, não é ruim. Trabalham, protegem o meio ambiente, têm valor! Eles ficam deslumbrados.


O que é o Fórum para o Desenvolvimento da Zona Leste? Como ele melhora a qualidade de vida dos catadores?

O Fórum é uma instituição da Sociedade Civil, fundada em 1999. Ele é muito amplo, formado por vários grupos e diretorias diversas. Quando o conheci, resolvi fazer parte do grupo de meio ambiente, mais especificamente com a coleta seletiva. Esse grupo existe até hoje, e desde 2000 realizamos reuniões mensais, no primeiro sábado de cada mês, à tarde, para discutir o assunto. São essas as reuniões em que os catadores trazem as demandas sobre o que querem saber.


Fazemos a parte de formação e capacitação lá. As oficinas e palestras. E é possível ver que parte do motivo pelo qual os catadores vão às reuniões é porque os tratamos muito bem: contamos com a parceria do SESC Itaquera, que oferece toda a infraestrutura para atendê-los, e temos o cuidado de perguntar o que querem fazer e aprender.


“NOSSO TRABALHO É RESPEITAR O TRABALHO DELES”

Quais os desafios de seu trabalho atual? Quais foram os sucessos e aprendizados?

Na verdade, temos um problema que nos desafia desde o início: as mudanças de gestão do poder público. É uma dificuldade enorme.


Como não temos uma política pública para os catadores (e é algo que deveríamos ter há muito tempo), cada vez que a gestão muda, tudo muda. Começa tudo do zero. Quem entra não sabe o que estava sendo trabalhado, e é necessário explicar novamente.


Algumas gestões, claro, são mais afins com a categoria; outras não querem ter que lidar com os catadores. Ou, pior, têm uma visão assistencialista para com eles: olham para o grupo e os veem como uma multidão de coitados.


Os aprendizados, no entanto, vêm naturalmente. Sou uma pessoa muito aberta, sempre estou próxima a eles. Com isso, vejo coisas e acontecimentos que dão muita dignidade ao trabalho. Eles se esforçam tanto... as descobertas são diárias. As pessoas passam por tantas coisas que acabamos aprendendo com elas.


Tem um caso do qual gosto muito. O Pedro é um catador da região do Aricanduva. Frequentava as reuniões de maneira apagada. Chegava despreparado, não participava, entrava ressabiado na sala. Um dia, um psicólogo fez uma palestra, na qual houve uma provocação para com todos os catadores. Pedro foi para casa consternado com aquilo. O que precisava fazer para mudar sua situação?


Pedro olhou para sua comunidade: crianças ociosas, sem atividades, por muitas vezes reféns do uso de drogas e do tráfico. Coincidentemente, em frente à sua casa havia uma área enorme e plana. Resolveu fazer lá um campinho para que as crianças jogassem bola. Assim, iriam sair da rua.


Enquanto botava sua ideia em prática, Pedro foi confrontado por pessoas da vizinhança contrarias à instalação do campinho. Mas, obstinado, encarou-as e o construiu mesmo sob ameaças. Cadastrou crianças da comunidade. Eram muitas! No começo, havia sessenta e cinco inscritas. Conseguiu o equipamento e estrutura necessários. Aos poucos, as pessoas apareceram para ajudá-lo. O campinho é um sucesso, e hoje funciona durante o dia inteiro.


Um dia, Pedro voltou à reunião, dizendo que agora merecia respeito. Fiquei emocionada. Era outro homem, empoderado e com um projeto enorme de ajuda comunitária. Uma superação. Hoje é uma grande liderança que aflorou de uma situação adversa.


Entre as pessoas com quem convive, certamente há aquelas que se destacam por sua liderança. Como se dá esse processo de identificação? Qual a importância delas para os demais?

Lideranças são natas; elas aparecem sozinhas nos grupos, e as pessoas naturalmente a respeitam. No nosso caso, não precisamos trabalhar por seu surgimento; espontaneamente estão sempre ao nosso lado, por iniciativa própria. O líder se interessa pelos assuntos.


São pessoas envolvidas com o todo. Agarram essas oportunidades. Trabalhar para todos é mais difícil, e eles conseguem abrir mão de suas próprias necessidades para ajudar o grupo. Eles dão o exemplo; são líderes, mesmo não sendo chefes hierárquicos na maioria das vezes.


Ainda sobre lideranças comunitárias, qual a importância, para você, da dedicação dos indivíduos a causas?

É importantíssimo! Quando há uma liderança boa, ela trabalha para aquele grupo. Bem-estar, qualidade de vida, do trabalho... Ela entende que a melhoria para todos é satisfatória para o indivíduo também.


Temos muitas lideranças, inclusive, que preferem fazer mais pelos outros do que por si mesmos. O próprio Pedro é um: tudo o que planejamos para ele é repassado para terceiros, justamente porque ele está sempre pensando nos outros primeiro.


Como um grupo de pessoas pode mudar um cenário? Que papel a comunidade tem na melhoria de suas condições?

Quando há um exemplo a ser seguido, as pessoas a seu redor começam também a pensar de outro jeito, influenciadas por ele.


Um exemplo prático: as crianças do campinho chegavam sem terem tomado café da manhã. Com o tempo, suas mães acabaram percebendo a seriedade do trabalho, e hoje alimentam seus filhos antes do esporte.


Isso vai mudando o desenho da comunidade toda. Uma pessoa, que é referência, inspira o comportamento de todos à sua volta. Hoje, por exemplo, as catadoras pedem palestras sobre violência doméstica, baseadas no que aprenderam com suas lideranças. Isso é importantíssimo. O líder tem comportamentos que os outros querem ter, também.


Como vê São Paulo atualmente? Quais seus desejos e anseios para os catadores? Como cada um pode contribuir com sua melhoria?

Gostaria muito que houvesse uma política pública direcionada aos catadores de materiais recicláveis, conferindo-lhes o respeito e proteção que merecem. O gestor público precisa ter a convicção de que está lidando com gente.


Não acredito que todos eles precisem de mudanças radicais em seu trabalho; acredito que seu trabalho é que precisa ter condições melhores. Um simples sapato, um boné, uma carroça decente para puxar...


O catador sabe que trabalhar melhor traz uma vida melhor. Vamos continuar melhorando a infraestrutura do trabalho dele, valorizando-o. Não são anônimos; são parte da cidade e têm direito a ela como todos nós!

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